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quinta-feira, 17 de novembro de 2011

a bem da união

Como cidadão europeu, deixo um apelo aos mercados: se vou andar a ser comandado por uma senhora do Norte da Europa com um chicote, posso ao menos escolher a primeira-ministra da Dinamarca?


Nem o velho Silvio ficou indiferente...

a crise como oportunidade

Para aqueles de vós que ainda andam a tentar perceber quais os limites da vossa zona de conforto, eis o guião da fita a que assistiremos num futuro próximo, sem tugir nem mugir, como é luso apanágio.

Começamos com a total subversão das regras democráticas na União Europeia, por imposição dos mercados que nunca nos foram apresentados.

Grupo de Frankfurt, o esquadrão de intervenção da Europa

A antiga Ópera de Frankfurt – em tempos, a mais bela ruína do pós-guerra da Alemanha e agora a sua recriação mais impressionante – tornou-se um símbolo do renascimento europeu. Foi aí que, no mês passado, Angela Merkel e Nicolas Sarkozy se reuniram com a elite burocrática da União Europeia, no que seria, noutros tempos, descrito como um golpe palaciano.

Fartaram-se de cimeiras da zona euro, com líderes vindos daqui e dali, para não chegarem a lado nenhum. Queriam formar um grupo mais pequeno, que exercesse o poder com firmeza, mas informalmente. Nessa noite, quando se reuniram para ouvir Claudio Abbado dirigir a Orquestra Mozart de Bolonha, nasceu um novo esquadrão de intervenção da UE.

(...) Quando Merkel falou, admitiu frustração em relação às cimeiras europeias e aos seus complexos mecanismos democráticos. "A capacidade de intervenção e de margem de manobra da UE revelou-se lenta e complicada", queixou-se. "Se queremos aproveitar a crise como uma oportunidade, temos de estar preparados para agir mais depressa e até de formas não convencionais." Sarkozy chegou atrasado, mas a tempo de participar no concerto da década.

Também presentes estavam o novo presidente do BCE, Mario Draghi, um italiano com pouca estima por Berlusconi. E Christine Lagarde, a nova presidente (francesa) do Fundo Monetário Internacional, que tem comandado as operações de recuperação de países em aflição e que não se coíbe de impor condições humilhantes (como fez com Berlusconi).

Estava José Manuel Durão Barroso, o cada vez mais aniquilador presidente da Comissão Europeia e o seu parceiro para as questões económicas Olli Rehn. O omnipresente Jean-Claude Juncker, primeiro-ministro do Luxemburgo e chefe do grupo das 17 nações da zona euro, apareceu com Herman Van Rompuy, eleito presidente da UE por não ter opiniões sobre nada.

(...) A democracia é vista com desconfiança – até mesmo aversão – pelo Grupo de Frankfurt, tal como pelos mercados. Os pontos de vista pessoais de Juncker sobre os irritantes eleitores ficaram famosos, desde que expressou o problema da governação da seguinte forma: "Todos sabemos o que fazer, mas não sabemos como ser re-eleitos depois de o termos feito”.

Estamos agora a ver uma solução para o problema de Juncker: nomeiam-se vários dirigentes que, logo à partida, não foram eleitos e que não vão andar à procura de votos para nenhuma re-eleição – e põem-nos a fazer o que se pretendia.

Nada neste cenário é perturbador para a maioria dos democratas. Aliás, quem é capaz de imaginar qualquer tipo de problema que possa surgir quando a Alemanha decide subtrair soberania a Estados vizinhos? Não, tudo a bem da Europa dos mercados, nada contra a Europa dos mercados.

Ultrapassada a barreira democrática e traçado o plano de acção, falta conhecer os salvadores das Pátrias que nos pariram. Pesos-pesados capazes de combater a crise.

Goldman Sachs, o banco que nos quer bem

(...) Os seus críticos acusam esta rede de influências europeia tecida pelo banco norte-americano Goldman Sachs (GS) de funcionar como uma loja maçónica. Em graus diferentes, o novo presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi, o presidente designado do Conselho italiano, Mario Monti, e o novo primeiro-ministro grego, Lucas Papademos, são figuras totémicas das malhas apertadas dessa rede.

(...) O primeiro foi vice-presidente do Goldman Sachs International para a Europa, entre 2002 e 2005. Era o "associado" que tinha a seu cargo o departamento de "empresas e países soberanos", o mesmo que, pouco antes da sua chegada, tinha ajudado a Grécia a camuflar as suas contas, graças ao produto financeiro "swap" sobre a dívida soberana.

O segundo foi conselheiro internacional do Goldman Sachs, de 2005 até à sua nomeação para a chefia do Governo italiano. De acordo com o banco, a sua missão era dar pareceres "sobre os assuntos europeus e os grandes dossiês de políticas públicas mundiais". Mario Monti foi um homem que "abriu portas", um homem cuja tarefa consistia em penetrar no centro do poder europeu para defender os interesses do GS.

O terceiro, Lucas Papademos, foi governador do Banco Central grego entre 1994 e 2002. Nessas funções, desempenhou um papel não esclarecido na operação de camuflagem das contas públicas levada a cabo com a ajuda do Goldman Sachs. Além disso, o responsável pela gestão da dívida grega é Petros Christodoulos, antigo corretor do banco norte-americano em Londres.

Quem melhor para nos tirar da crise que os indivíduos que melhor a conhecem, por lhe estarem na génese? Mas alguém vê um conflito de interesses aqui? Decerto que não, aliás, o currículo de cada um será incensado por forma a constituir um garante de credibilidade e estabilidade junto dos mercados.

Problema deles? Pois. Nós ainda temos tempo. Mas não muito. Enquanto os amigos do Gaspar vão lavrando caminho, vai ficando cada vez mais claro que não durarão muito no seu poleiro. A receita leva ao desastre, e todos o admitem mais cedo ou mais tarde. Chegando o desastre, os amigos do Gaspar serão apeados, haverá um discurso catastrofista, seguir-se-á uma coligação de Salvação Nacional em que participarão os ex-amigos-agora-apenas-vagamente-conhecidos do Gaspar mais os invertebrados do PS (o P é de partido e o S ficou na gaveta) e a parte mais sumarenta disto tudo é... QUEM SERÁ O ESCOLHIDO?

Procura-se um gajo do partido com maioria no Parlamento, indigitado sem ser eleito (que isso de eleições já não se usa), com currículo, de preferência na Goldman Sachs, que ponha um semblante pesaroso e se encarregue de levar toda a colheita e ainda deite sal na terra para que nada mais lá volte a crescer. E parece que há um que ficou subitamente disponível.

...

Camarada, amigo, palhaço deste circo que é a vida: se chegaste até aqui, parabéns, deves ter sido o único e provavelmente já estavas convencido. Mas enfim, com muita dranguilidade te relembro...

HÁ ALTERNATIVA!

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

reflexões em cascata

Deixai-me sair do meu torpor velocipédico e partilhar algo que escrevi há uns tempos, com ligeiras adaptações. Consigo identificar pelo menos três razões para publicar isto, de todo, e sobretudo hoje. Ou acredito que sim, pode ser impressão minha. Cá vai:

Adoro conduzir. É algo muito útil na vida duma pessoa, mas para mim é também um prazer, desde que bem feito.
O carro que costumo conduzir é provavelmente o carro mais fixe alguma vez criado. Carro pequeno com motor pequeno, o que faz com que tudo funcione à escala. A máquina puxa-se a si própria e outro tanto de carga. Leva tempo a acelerar, mas aguenta velocidade cruzeiro que é uma maravilha, e a gastar pouco combustível.
Toda a gente admira o carro, com mais ou menos entusiasmo. Todos têm curiosidade em experimentar, mas poucos compreendem o que é preciso para fazer dele um modo de vida.
Volta e meia até o levo para a auto-estrada, mas não faz sentido. O carro foi feito para percorrer estradas nacionais e municipais, sinuosas e esburacadas, de capota aberta e cotovelo janela fora.
Neste caso, o carro determina o modo de vida. A maior parte das pessoas prefere usar um carro rápido, seguro e confortável para circular na auto-estrada, permitindo chegar a um qualquer destino longínquo e bem definido, o mais rapidamente possível.
Eu prefiro fazer-me à estrada de janela aberta, a rapar frio, sem pressas. Para mim, importa mais a viagem. Não quero ter um destino.


- original redigido em Wysokie Mazowieckie (PL) em 8 de Agosto de 2011, quando um ciclista me desafiou para simplesmente escrever algo; adaptado para publicação

terça-feira, 16 de agosto de 2011

telegrama do báltico

Diz que me estou a tornar famoso. Até tremo só de pensar.

Jovens pedalam contra barreiras à mobilidade

Mais desenvolvimentos aqui, com um certo atraso porque ainda não encontrei uma secretária.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

a falácia da privatização

Se uma empresa é cronicamente deficitária, ninguém a vai querer comprar.

Se alguém a quer comprar, é porque pode ser rentável.

Se não é rentável agora, então é mal gerida.

Se é mal gerida, castigue-se o mau gestor.

E, de caminho, quem o nomeou.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

segunda-feira, 18 de abril de 2011

paira sobre o público o espectro de jmf

Reparem na diferença de títulos e verifiquem a semelhança de conteúdo:

BE convocado para reunião com a "troika" mas não vai comparecer

PCP recusou reunir-se com instituições internacionais

Esta marca de acendalhas, frequentemente apelidada de publicação de referência, vem fazendo enormes esforços para ignorar por completo a existência do PCP. Vítor Dias, no seu tempo das cerejas, denuncia mais uma flagrante tentativa de silenciamento.

Alas, a verdade é que o PCP (e não só) tem sucessivamente denunciado os termos da adesão à moeda única - que talvez sobreviva mas não sem antes Portugal ser atirado borda fora -, o conteúdo do Tratado de Lisboa - que obviamente não dotou a UE de mecanismos para ultrapassar uma crise destas -, assim como muitas outras facetas da construção europeia que nada tem de democrática. Foram consistentemente apelidados de dinossauros. Interessa então aos powers that be ocultar estas evidências e quem as denunciou, escamotear responsabilidades e seguir alegremente para o abismo.

O PCP tem propostas, mas raramente estas chegam ao conhecimento da população através da comunicação social. Apesar do trabalho de fundo, da sustentação técnica e política, da justeza e clareza dessas propostas, só se fala de Cuba e da Coreia do Norte.

O ruído levantado impede o juízo informado. Não me incomoda nada que as pessoas rejeitem os argumentos e as propostas, desde que o façam racionalmente. Mas incomoda-me que nem se dêem ao trabalho de saber quais os argumentos e quais as propostas.

E tu que (mal) lês estas palavras, embarcas no festival da TV e vais votar com os pés, botar a cruzinha no meta-engenheiro ou no meta-literato, incapaz de reconhecer que são ambos as nalgas do cu que te cobre de merda, és responsável pela miséria a que votas a tua família, os teus amigos, os teus vizinhos e um país inteiro.

A sério, pá. Tens até 5 de Junho para ganhar juízo.

quarta-feira, 23 de março de 2011

breve comentário

Parece que decorre uma sessão no Parlamento. Sigo via Público, e ressalvando a discricionariedade editorial, saliento isto:

16h50 Teixeira dos Santos diz que “havia pouca carne” do lado do BPN.

16h49 Teixeira dos Santos para Bernardino Soares: “São precisos os ovos todos e eu não quero matar as galinhas.”

16h46 Teixeira dos Santos para Bernardino Soares: “O senhor achou que isto [o debate] era tão importante que até usou uma linda gravata.”

16h40 Bernardino Soares: “Este PEC não é um Plano de Estabilidade e Crescimento, é um programa de recessão e de instabilidade para a vida das pessoas.”. E acrescenta que o corte das indemnizações aos trabalhadores é “um esbulho”.

16h35 Fala Bernardino Soares (PCP): “O Governo tratou mal a Assembleia da República na apresentação do PEC.”

Acrescente-se este detalhe:

15h35 Teixeira dos Santos diz que o país precisa de um amplo entendimento político e critica o PSD de ter ânsia de chegar ao poder de que está afastado há seis anos, terminando assim a primeira intervenção. José Sócrates deixa a sala sem explicações.

Até agora, a única pessoa que me explicou as razões por que não vota foi um anarca. Um anarca que defende que a democracia é um sistema com falhas insuperáveis. A prova última que sustenta esta afirmação, a meu ver, é o metaengenheiro. O desrespeito pela única instituição representativa do povo português (com letra pequenina) é de tal modo grave que a democracia ficou reduzida a um concurso de celebridades com dois concorrentes apenas.

A geração à rasca também é responsável por este estado de coisas, assim como todas as outras gerações. Safam-se os menores de 18 anos à data das últimas legislativas. Existe neste país liberdade de associação, democracia participativa e toda uma série de conceitos que invalidam qualquer argumento abstencionista de qualquer autoproclamado democrata.

Todos aqueles que se resignam a viver nesta bosta merecem viver nela.

Voltarei ao assunto quando as circunstâncias o justificarem.

quinta-feira, 17 de março de 2011

indicadores viciados

Apesar do que o título possa sugerir, esta posta não trata de toxicodependência digital. E apesar do que o tema de que a posta não trata possa sugerir, digital refere-se a dedo.


(falso alarme)

Mas voltando ao início: existe uma tendência terrível, por parte dos governantes, em tomar decisões sem levar em consideração toda a informação disponível que possa orientar e balizar essas mesmas decisões. Se não é líquido, como afirma Cavaco, que duas pessoas com a mesma informação chegam necessariamente à mesma conclusão, já será seguro assumir que uma só pessoa com acesso a informação errada chega a uma conclusão errada, na esmagadora maioria dos casos.


Cavaco recebido em apoteose por cidadãos "de etnia africana" após a gloriosa reconquista de Angola, esforço militar coroado de êxito graças ao "desprendimento" da geração "à rasca"; geração essa que, sendo a mais qualificada de sempre, descobriu como dar uso a dois submarinos e dois blindados da PSP

Isto tudo a respeito do golfe. E ao contrário do que se possa crer na RTP, esta posta não trata do automóvel da Volkswagen. Sim, essa bronca configura um caso de "epic fail" e estamos todos muito contentes que tenha ocorrido. Aliás, parece que já há ecos nas redes sociais.

Dizia eu, esta posta aborda a temática do golfe. E, não sendo o golfe um desporto (fodei-vos, não é!), esta posta aflora um mundo vagamente relacionado com desporto.

O que levaria os governantes, numa situação tão precária como a actual, a baixar o IVA ao golfe? Decerto teriam algum indicador de maior procura por esta modalidade - repito, não desportiva - e, como o golfe é uma coisa que gera dinheiro, incentiva-se a prática para obter maior receita fiscal em volume, e não em taxa.

Onde poderá estar esse indicador viciado que terá levado os governantes a fazer esta interpretação? Sim, necessariamente esta, porque os governantes, autoproclamados socialistas, NUNCA teriam a indelicadeza de baixar o imposto dum passatempo de ricos numa fase de empobrecimento geral!

tive que mudar de PC após escrever aquela última frase, parece que não há aceleração gráfica que permita aguentar este tipo de afirmações

Pois bem, após alguma reflexão, este vosso humilde servo descortinou a verdadeira razão pela qual os governantes foram induzidos em erro, crendo numa procura atípica por uma actividade rentável. E aqui afloramos o desporto:

já perceberam que estou a falar de bolas de golfe, certo?

Concluo propondo que os governantes considerem a aplicação de taxas pesadas à utilização de anões argentinos em jogos da Liga, que o povo lampião paga-as de bom grado e o deficit passa a superavit enquanto o diabo (de Gaia) esfrega o olho.

segunda-feira, 14 de março de 2011

a propósito do simpático ajuntamento...

... gostaria de referenciar estas palavras do Pedro Penilo. Subscrevo integralmente, aliás, "gostava de ter escrito isto", parafraseando um deputado ao Parlamento Europeu.

(...) As citações acima são excertos do manifesto que fundou o protesto da Geração à Rasca. Diz: “Nós, que até agora compactuámos…”. E prossegue: “…todos os responsáveis pela nossa actual situação de incerteza – políticos, empregadores e nós mesmos…”. E endereça convites a todos os partidos, a toda a sociedade. A todos. Aos explorados e aos exploradores. Aos responsáveis pela política de espoliação dos trabalhadores de todas as gerações e aos que sempre contra ela lutaram. Não era uma manifestação de arrependidos (eleitores que tivessem votado no PS, no PSD ou no CDS). Não. Era um protesto dos que compactuaram, dos que são responsáveis: todos nós.

Ora, eu não compactuei. Não sou co-responsável pela situação. Eu e muitos milhares de amigos companheiros e camaradas que lutamos todos os dias para mudar a situação. Não se ouve falar disto, porque a comunicação social não trata com o mesma atenção esta outra face da luta quotidiana. Não revela milhares de outros rostos, tão espontâneos como dignos de interesse. Com intenção, ou por erro que não se quis corrigir nunca, este movimento não nos quis incluir. (...)

Até me agradou ver umas caras conhecidas nas reportagens histéricas com que as estações televisivas nos brindaram, mas aproveito para esclarecer o seguinte: eu não acredito que esta "geração" tenha acordado. Acho que esta "geração" fala durante o sono.

Que o povo quer dinheiro para comprar um carro novo não é novidade para ninguém. Agora quero ver este povo "à rasca" a ser consequente, até porque a ideia de cada um trazer uma proposta numa folha A4 equivale a um mural do facebook impresso. Protestam contra a precariedade? Bonito. E quantas vezes mudaram de canal quando certos partidos e certos políticos (tão dispensáveis, na opinião da massa anónima) denunciavam essa mesma precariedade? E quantas vezes votaram e revotaram naqueles que fomentaram essa precariedade? E quantas vezes se demitiram desse dever com o preguiçoso pretexto "são todos iguais"?

Não quero com isto acusar todos os manifestantes e apoiantes do movimento de serem uns panhonhas, mas creio que só uma diminuta percentagem dos reais panhonhas venha a abrir os olhos e tomar uma atitude. É pena, mas é assim. Na nossa História, o povo nunca começou nada enquanto tal. Foi sempre preciso um pequeno grupo na vanguarda (do 1º de Dezembro ao 25 de Abril). A "geração à rasca" não é vanguarda de coisa nenhuma.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

o dia até me estava a correr bem, agora escuteiros?!


Acho que tenho um escuteiro escondido na mochila. Vai ser difícil de o encontrar, mas só isso explica os nós absolutamente diabólicos nos headphones de cada vez que atiro o leitor de mp3 lá para dentro.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

deolindices

Esta recente celeuma acerca da canção dos Deolinda mostra bem o ridículo em que esta geração caiu para encarar o tema como um hino revolucionário. Aliás, chamar-lhe hino já é sintomático da pobreza intelectual vigente, e chamar-lhe revolucionário é uma piada de muito mau gosto, sendo também revelador da total incapacidade da parva geração em libertar-se das amarras que a mantêm presa ao fundo deste poço de merda.

Inspirado após a leitura desta excelente posta do Luís Naves, também aproveito para denunciar esta ideia imbecil dum conflito de gerações. Por muita vontade que eu tenha de mandar foder as gerações que andaram a eleger o Cavaco consecutivamente, o que muito me condicionou e condicionará a vida e me dá pouca vontade de andar a sustentar as reformas delas, a verdade é que o problema não é uma geração ocupar o lugar que devia ser da seguinte. Bardamerda. Se fosse esse o problema, a malta nova andava toda a ajudar o avô a sachar a horta!

O que a malta continua a querer não perceber é que quem hipoteca o futuro ao jovem licenciado não é o funcionário público, que por sinal vem sendo saco de pancada vai para mais de dez anos. Quem nos vem fodendo a vida são os Varas e os Mexias e toda a sorte de filhos duma grande puta que sugam esta terra até ao tutano e depois a salgam para que nada mais volte a crescer. Aliás, porque raio é que o Ferreira do Amaral ainda anda à solta?

Mas, sinceramente, quando o jovem licenciado não vota "porque são todos iguais", ou vai votar no Passos Coelho porque descobriu a muito custo que o Sócrates mentiu, e vice-versa, então que caralho de futuro merece o jovem licenciado? Eu quero que o jovem licenciado se foda se é incapaz de perceber a raíz do seu problema.

E acima de tudo, quero que o jovem licenciado se foda porque não só não é capaz de salvaguardar a sua posição, como mesmo que conseguisse nunca seria Homem para defender quem não tem meios para tal. Quem vai viver menos 10 anos que ele, por exemplo.

Como dizia o outro, eu é que não sou parvo. Se querem levar esta merda ao fundo, divirtam-se. Eu abandono. Chamem-me quando for tarde demais, talvez os ratos tenham abandonado o navio e se possa começar de novo.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

com dedicatória

... a todos os que alinharam na culpabilização dos funcionários públicos e acharam bem merecidos os cortes em salários congelados há uma década (salvo aquele fugaz aumento pré-eleitoral):

Governo corta indemnizações de 30 para 20 dias

Salários podem cair por causa das novas regras das indemnizações

Esta é dedicada a quem reelegeu o Sócrates, que faz estas merdas, e o Cavaco, que lhe dá cobertura.

Esta é dedicada a todos os acéfalos que embarcam na conversa de que a culpa é sempre de quem trabalha, e não de quem dirige as empresas - a esses não faltará nunca um puto carrão e um salário 40 vezes superior ao dos empregados.

Esta é dedicada a esses acéfalos que cavam a sua própria sepultura alegremente, até se acabar a mama porca: vão ficar sem reforma. Pelas suas opções e em dobro, porque os descontos que fizeram deixarão de contar, e porque malta como eu vai trabalhar para fora e não vai ficar aqui a sustentar quem nos arruinou a vida.

A solidariedade é muito bonita mas certas coisas são imperdoáveis. Se a minha geração tiver um mínimo de auto-respeito, salta do barco e deixa-o afundar. Eu, pelo menos, estou farto de ser prejudicado por um bando de imbecis que vota com os pés, tem a memória dum peixe-dourado e a espinha duma lesma.

Fodei-vos! E o Cavaco não é o meu presidente.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

curtas do mundo do silício

O Windows, desde há umas versões atrás, passou a incluir a função System Restore. Mas a sério, quem quer restaurar um sistema que acabou de dar o peido mestre?

Backup and format.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

propaganda acéfala

Numa paragem pela RTP-N, apanho uma peça do Radar de Negócios que daria uma erecção ao primeiro-ministro. Carro eléctrico. "Já imaginou uma auto-estrada silenciosa mas com carros?" Otários de merda. A maior parte do ruído vindo duma auto-estrada não vem dos motores, mas sim dos pneus. "Zero emissões de carbono." Exacto, excepto aquela parte (mostrada um minuto depois) em que Portugal tem uma dependência de 55% de petróleo. Donde vem a merda da electricidade para alimentar os carrinhos de brincar? Do ar? Emissões zero? Metem-me nojo.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

AAUAv e a prática de pensar

Confesso que tinha saudades de assistir a um espectáculo destes. É triste, sem dúvida, mas levemente nostálgico. Quando eu ingressei nesta Escola Superior de Ciências do Grifo, ainda estes eventos davam pelo nome de RGA. Havia comunistas a acampar em frente às residências, caldo verde e bifanas para 200 pessoas, ruas cortadas para uma manifestação de largas centenas e uma saudável, embora residual, cultura de contestação.

Ao fim de alguns anos de envolvimento, a podridão cansou-me. As jotinhas ganharam um poleiro, da mesma forma que ganharam o país, e eu fui dar uma volta ao bilhar grande. Acabei por abraçar outros projectos, mas mantendo-me atento e minimamente crítico em relação ao evoluir da AAUAv enquanto estrutura representativa dos estudantes.

Não vou repetir o diagnóstico que qualquer caralho com dois dedos de testa consegue fazer à estrutura e seus órgãos sociais. Basta salientar que é periódico, ou seja, repete-se a intervalos regulares ao longo do tempo.

Há movimentos e movimentações, reuniões conspirativas, lavagem de roupa suja, eleições com atropelos democráticos flagrantes, ameaças de impugnação, resignação azeda, movimentos de reacção (duração média de duas semanas), silêncio durante meses, voltam os movimentos e movimentações e o ciclo completa-se.

O aparecimento deste movimento encaixa perfeitamente no perfil clássico, as tácticas são bem conhecidas e as intenções dos intervenientes serão até boas, embora as dos impulsionadores, personagens sombrias, dificilmente o sejam.

Clamam pela abertura da AAUAv ao universo dos estudantes, quando a experiência do passado mostra claramente que todo o grupo bem-intencionado se torna autista quando se instala no Crasto. As campanhas eleitorais são venenosas e resumem-se a contabilidade de cabeças de gado arregimentadas pelos cromos da praxe. Pontualmente, aplicam-se autocolantes a um traseiro particularmente famoso na Academia.

Quando me vêm falar da importância do associativismo e da participação, assumo de imediato que se trata de ainda mais poeira para os olhos. O sentido de oportunidade não é inocente, por muito que o clamem, e as pessoas são incapazes de tomar iniciativa sem apontar aos outros culpas mais graves que as que lhes foram, são e serão apontadas.

O facebook e o Blogger são gratuitos todo o ano. Acham que são diferentes? Eis uma excelente altura para o provar. Comecem por tirar a cabeça do cu.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

foi de relance

mas acho que entrevi uma expressão característica dum desses heróis que andaram a pavimentar o caminho para a independência do Portugal Superior. Mais concretamente no instante 3:33, ou não fosse meio diabólico...

quinta-feira, 22 de julho de 2010

financiamento do ensino superior: estado da arte

Agora que tenho, finalmente, um bocadinho livre para voltar a escrever, quero aproveitar para reunir aqui algumas coisas que li recentemente e partilhar algumas impressões.

O inconcebível retrocesso no acesso ao ensino superior
É sobejamente conhecido que Portugal tem taxas de acesso ao ensino superior que estão muito aquém das que se verificam, não apenas na generalidade dos países da União Europeia, mas mesmo em países que são considerados como menos desenvolvidos. Impunha-se por isso um grande esforço do Estado português no apoio ao acesso ao ensino superior por parte dos jovens portugueses, em nome da superação do atraso nacional e a bem das possibilidades de acesso a emprego qualificado por parte das gerações futuras.

Fez-se precisamente o contrário. As propinas no ensino superior público, que meados dos anos noventa tinham um valor simbólico, estão hoje acima dos 900 euros anuais. Isto nas licenciaturas e nos mestrados integrados, já que nos mestrados não integrados as propinas ascendem a milhares de euros anuais. Acresce que o famigerado processo de Bolonha se encarregou de desgraduar as licenciaturas, fazendo com que a habilitação exigida para o acesso a profissões qualificadas seja o mestrado.

O deputado comunista António Filipe resume aqui o triste estado a que se chegou no Ensino Superior por estas bandas, tocando nas duas questões fulcrais: financiamento e adaptação bolonhesa. Asseguro-vos que estão intimamente ligadas.

Lê-se na Constituição da República Portuguesa, Artigo 74º, nº 2, alínea e):
Na realização da política de ensino incumbe ao Estado: (...) Estabelecer progressivamente a gratuitidade de todos os graus de ensino;

Ora, até era gajo para acreditar na realização desta incumbência ao ler este título:

Valor das propinas vai baixar pela primeira vez em 5 anos
As propinas vão baixar no próximo ano lectivo. É a primeira vez, nos últimos cinco anos, que os alunos do ensino superior vêem reduzir o valor da propina máxima, que passa de 996,85 para 986,88 euros.

A abismal queda do valor da propina máxima deixa qualquer um estupefacto.
Uma redução de dez euros que resulta do facto de este valor estar indexado à taxa de inflação média do ano anterior e de, em 2009, esta taxa ter sido negativa (-0,8%).

Parece que afinal, isto apenas resulta duma taxa de inflação negativa.
Mas este é também, segundo apurou o Diário Económico, o primeiro ano em que todas as universidades públicas, à excepção de alguns politécnicos, se preparam para cobrar a propina máxima, sendo que no ano passado esta já era uma tendência em quase todos os estabelecimentos de ensino superior.

Parece que, afinal, o cenário não melhorou. A miséria alastra-se.

O aumento das propinas foi justificado como estando vagamente relacionado com o aumento da qualidade de ensino. Foi provado, até à exaustão, que o aumento das propinas serviu apenas para colmatar a desorçamentação por parte dos sucessivos governos, isto é, para pagar as contas.

Houve promessas de que ninguém ficaria de fora do Ensino Superior, desde logo desmentidas pelo aumento do abandono escolar a este nível. É que, perante os custos astronómicos da frequência duma Universidade ou dum Politécnico, restam duas soluções ao aluno: bolsa ou empréstimo.

Os empréstimos para estudos foram introduzidos em Portugal já na era socrática, apresentados como maná do céu apesar de exemplos negativos notórios e defendidos por socratetes histéricas. Ainda é cedo para avaliar o impacto deste sistema.

Quanto às bolsas, as notícias não auguram nada de bom:

Milhares podem perder bolsas
Os alunos do ensino superior que beneficiam de apoio social podem sofrer cortes nas bolsas tendo em conta a nova fórmula de cálculo para a atribuição dos apoios. De acordo com informações divulgadas quarta-feira pelo director--geral do Ensino Superior no Parlamento, pelo menos 25% dos mais de 70 mil bolseiros existentes em Portugal vão perder o apoio ou baixar de escalão. Em causa está a nova lei que vai entrar em vigor dia 1 de Agosto e que torna mais exigente os requisitos para o acesso a apoios sociais.

Entre a linguagem de governantes, oposição, pasquins e blogueiros, já todos ouviram e leram tudo o que podia ser dito e escrito. Vou então tentar fazer passagem esta mensagem, destinada em particular aos meus caros colegas.

Caro colega,

já que de vez em quando te deslocas a uma mesa de voto e exerces o teu dever cívico com os pés, ficas a saber que, se um teu colega de curso/turma/grupo for obrigado a abandonar os estudos por falta de dinheiro, não te esqueças que foi o teu voto no bloco central que ajudou a correr com ele.

Tira mas é a cabeça do cu e ganha juízo. Pára de destruir, directamente ou por interposta juventude partidária, um dos poucos motores de desenvolvimento deste país de merda. O teu país.

Saudações escatológicas,

Simões