E não é sangria da boa:
680 alunos bolseiros do Politécnico de Coimbra vão ter de devolver o dinheiro
Ministério pede reunião de urgência a Politécnico de Coimbra por causa de devolução de bolsas
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terça-feira, 18 de janeiro de 2011
quinta-feira, 22 de julho de 2010
financiamento do ensino superior: estado da arte
Agora que tenho, finalmente, um bocadinho livre para voltar a escrever, quero aproveitar para reunir aqui algumas coisas que li recentemente e partilhar algumas impressões.
O inconcebível retrocesso no acesso ao ensino superior
O deputado comunista António Filipe resume aqui o triste estado a que se chegou no Ensino Superior por estas bandas, tocando nas duas questões fulcrais: financiamento e adaptação bolonhesa. Asseguro-vos que estão intimamente ligadas.
Lê-se na Constituição da República Portuguesa, Artigo 74º, nº 2, alínea e):
Ora, até era gajo para acreditar na realização desta incumbência ao ler este título:
Valor das propinas vai baixar pela primeira vez em 5 anos
A abismal queda do valor da propina máxima deixa qualquer um estupefacto.
Parece que afinal, isto apenas resulta duma taxa de inflação negativa.
Parece que, afinal, o cenário não melhorou. A miséria alastra-se.
O aumento das propinas foi justificado como estando vagamente relacionado com o aumento da qualidade de ensino. Foi provado, até à exaustão, que o aumento das propinas serviu apenas para colmatar a desorçamentação por parte dos sucessivos governos, isto é, para pagar as contas.
Houve promessas de que ninguém ficaria de fora do Ensino Superior, desde logo desmentidas pelo aumento do abandono escolar a este nível. É que, perante os custos astronómicos da frequência duma Universidade ou dum Politécnico, restam duas soluções ao aluno: bolsa ou empréstimo.
Os empréstimos para estudos foram introduzidos em Portugal já na era socrática, apresentados como maná do céu apesar de exemplos negativos notórios e defendidos por socratetes histéricas. Ainda é cedo para avaliar o impacto deste sistema.
Quanto às bolsas, as notícias não auguram nada de bom:
Milhares podem perder bolsas
Entre a linguagem de governantes, oposição, pasquins e blogueiros, já todos ouviram e leram tudo o que podia ser dito e escrito. Vou então tentar fazer passagem esta mensagem, destinada em particular aos meus caros colegas.
Caro colega,
já que de vez em quando te deslocas a uma mesa de voto e exerces o teu dever cívico com os pés, ficas a saber que, se um teu colega de curso/turma/grupo for obrigado a abandonar os estudos por falta de dinheiro, não te esqueças que foi o teu voto no bloco central que ajudou a correr com ele.
Tira mas é a cabeça do cu e ganha juízo. Pára de destruir, directamente ou por interposta juventude partidária, um dos poucos motores de desenvolvimento deste país de merda. O teu país.
Saudações escatológicas,
Simões
O inconcebível retrocesso no acesso ao ensino superior
É sobejamente conhecido que Portugal tem taxas de acesso ao ensino superior que estão muito aquém das que se verificam, não apenas na generalidade dos países da União Europeia, mas mesmo em países que são considerados como menos desenvolvidos. Impunha-se por isso um grande esforço do Estado português no apoio ao acesso ao ensino superior por parte dos jovens portugueses, em nome da superação do atraso nacional e a bem das possibilidades de acesso a emprego qualificado por parte das gerações futuras.
Fez-se precisamente o contrário. As propinas no ensino superior público, que meados dos anos noventa tinham um valor simbólico, estão hoje acima dos 900 euros anuais. Isto nas licenciaturas e nos mestrados integrados, já que nos mestrados não integrados as propinas ascendem a milhares de euros anuais. Acresce que o famigerado processo de Bolonha se encarregou de desgraduar as licenciaturas, fazendo com que a habilitação exigida para o acesso a profissões qualificadas seja o mestrado.
O deputado comunista António Filipe resume aqui o triste estado a que se chegou no Ensino Superior por estas bandas, tocando nas duas questões fulcrais: financiamento e adaptação bolonhesa. Asseguro-vos que estão intimamente ligadas.
Lê-se na Constituição da República Portuguesa, Artigo 74º, nº 2, alínea e):
Na realização da política de ensino incumbe ao Estado: (...) Estabelecer progressivamente a gratuitidade de todos os graus de ensino;
Ora, até era gajo para acreditar na realização desta incumbência ao ler este título:
Valor das propinas vai baixar pela primeira vez em 5 anos
As propinas vão baixar no próximo ano lectivo. É a primeira vez, nos últimos cinco anos, que os alunos do ensino superior vêem reduzir o valor da propina máxima, que passa de 996,85 para 986,88 euros.
A abismal queda do valor da propina máxima deixa qualquer um estupefacto.
Uma redução de dez euros que resulta do facto de este valor estar indexado à taxa de inflação média do ano anterior e de, em 2009, esta taxa ter sido negativa (-0,8%).
Parece que afinal, isto apenas resulta duma taxa de inflação negativa.
Mas este é também, segundo apurou o Diário Económico, o primeiro ano em que todas as universidades públicas, à excepção de alguns politécnicos, se preparam para cobrar a propina máxima, sendo que no ano passado esta já era uma tendência em quase todos os estabelecimentos de ensino superior.
Parece que, afinal, o cenário não melhorou. A miséria alastra-se.
O aumento das propinas foi justificado como estando vagamente relacionado com o aumento da qualidade de ensino. Foi provado, até à exaustão, que o aumento das propinas serviu apenas para colmatar a desorçamentação por parte dos sucessivos governos, isto é, para pagar as contas.
Houve promessas de que ninguém ficaria de fora do Ensino Superior, desde logo desmentidas pelo aumento do abandono escolar a este nível. É que, perante os custos astronómicos da frequência duma Universidade ou dum Politécnico, restam duas soluções ao aluno: bolsa ou empréstimo.
Os empréstimos para estudos foram introduzidos em Portugal já na era socrática, apresentados como maná do céu apesar de exemplos negativos notórios e defendidos por socratetes histéricas. Ainda é cedo para avaliar o impacto deste sistema.
Quanto às bolsas, as notícias não auguram nada de bom:
Milhares podem perder bolsas
Os alunos do ensino superior que beneficiam de apoio social podem sofrer cortes nas bolsas tendo em conta a nova fórmula de cálculo para a atribuição dos apoios. De acordo com informações divulgadas quarta-feira pelo director--geral do Ensino Superior no Parlamento, pelo menos 25% dos mais de 70 mil bolseiros existentes em Portugal vão perder o apoio ou baixar de escalão. Em causa está a nova lei que vai entrar em vigor dia 1 de Agosto e que torna mais exigente os requisitos para o acesso a apoios sociais.
Entre a linguagem de governantes, oposição, pasquins e blogueiros, já todos ouviram e leram tudo o que podia ser dito e escrito. Vou então tentar fazer passagem esta mensagem, destinada em particular aos meus caros colegas.
Caro colega,
já que de vez em quando te deslocas a uma mesa de voto e exerces o teu dever cívico com os pés, ficas a saber que, se um teu colega de curso/turma/grupo for obrigado a abandonar os estudos por falta de dinheiro, não te esqueças que foi o teu voto no bloco central que ajudou a correr com ele.
Tira mas é a cabeça do cu e ganha juízo. Pára de destruir, directamente ou por interposta juventude partidária, um dos poucos motores de desenvolvimento deste país de merda. O teu país.
Saudações escatológicas,
Simões
sexta-feira, 16 de abril de 2010
uma aventura na bancarrota
Vai ser mais difícil ter um filho na escola, alertam pais
A Confap frisa que qualquer redução nas deduções fiscais de que beneficiam as despesas com a educação deve ser rejeitada "de forma inequívoca", já que contribuirá para que, para muitas famílias, se torne "completamente impossível manter com dignidade" os seus filhos a estudar, mesmo tratando-se de escolaridade obrigatória, agora alargada até aos 18 anos. Actualmente são dedutíveis à colecta 30 por cento das despesas de educação até um limite fixado em 160 por cento do salário mínimo nacional.
O Ministério das Finanças não esclareceu se vai diminuir o valor percentual que pode ser deduzido ou se irá baixar o limite dedutível. A Confap fez algumas simulações com base na primeira hipótese e chegou à conclusão de que, se aquela percentagem baixar para os 20 por cento, muitas famílias não só deixarão de poder contar com reembolsos, como terão que pagar mais imposto.
(...) Ao reduzir as deduções, o Estado pode criar "situações insustentáveis", alerta Alvarenga, frisando que esta será uma opção de sentido contrário ao que a Constituição estipula, que é a gratuitidade escolaridade básica. (...)
sábado, 12 de dezembro de 2009
ajuste directo?
Depois de obras na Escola Gil Vicente, entra água e abateu um tecto
“Com quinze dias de aulas, entra água em muitos pontos, abateu um tecto, as paredes estão já muito deterioradas, os pisos já destruídos, com portas e armários empenados”, descreve o parecer da comunidade escolar. A intervenção, iniciada em Julho de 2008, ainda não terminou, mas na parte da obra terminada e posta ao serviço da escola, a avaliação da comunidade escolar é negativa.
“Em vez de uma escola melhor, é hoje visível por todos que o que está a resultar da actual intervenção é uma escola sem condições de trabalho, pouco segura, pouco funcional, pouco higiénica, de degradação rapidíssima”, lê-se no parecer. O projecto “desrespeitou inteiramente a traça anterior da escola” - inaugurada em 1949 - e “tudo o que eram materiais e traçados antigos foram substituídos por linhas novas e materiais mais recentes”. “O problema reside em que a escolha dos materiais não obedeceu a critérios de qualidade, resistência e durabilidade e que a escola original ficou completamente desfigurada”, aponta o documento.
segunda-feira, 21 de setembro de 2009
ladrões
Charge students more, say bosses
University students in the UK should pay more for their loans and accept higher tuition fees as "inevitable", says a report from business leaders.
The Confederation of British Industry says the extra money needed to fund universities should come from savings in the student support system.
quarta-feira, 15 de julho de 2009
afinal havia uma OCDE a sério
OCDE: avaliação de professores deve ser alterado
O relatório da OCDE, feito a pedido do Ministério da Educação, defende a necessidade de alteração no sistema de avaliação dos professores em Portugal. A organização estudou o modelo de avaliação de desempenho dos professores, adoptado pelo Governo, considerando que este causa focos de tensão e deve funcionar como futura base de trabalho.
No entanto, a OCDE defende que a avaliação de professores deve continuar, mas que as preocupações e dificuldades dos professores devem ser tidas em conta. O relatório revela que existem vários elementos problemáticos no actual modelo de avaliação e, por isso, são necessários ajustamentos.
segunda-feira, 8 de dezembro de 2008
Já alguma vez se falou aqui da praxe?
Sim, já se falou. Era uma pergunta retórica. Mas voltemos ao proverbial frio bovino:
Comecemos com um disclaimer - Enquanto ex-caloiro, enquanto novamente-caloiro, enquanto membro mais-ou-menos participativo da Associação Académica de Coimbra, enquanto estudante do Ensino Superior e enquanto cidadão, não gosto da praxe académica. Quando digo que não gosto, quero dizer que não me revejo nem nas práticas nem nos valores que lhe são associados, pelo menos na realidade em que me movimento e de que me apercebo, apesar de andar frequentemente distraído. Em boa verdade, parece-me um processo anacrónico, retrógrado e hierarquizante. É sobretudo aqui que bate o ponto: nunca consegui compreender a razão para estar "acima" ou "abaixo" de qualquer um dos meus colegas, com as mesmas qualificações e responsabilidades que eu, por ter realizado a primeira matrícula no Ensino Superior numa bela manhã algures em Setembro de 2004 (lembro-me bem).
Em todo o caso, entre Outubro e Dezembro desse ano, resolvi deixar-me ir na mesma corrente em que via os meus colegas a vogar, e posso dizer que não tirei resultados traumáticos disso: embebedei-me com eles, participei vestido de forma ridícula e inapropriada para o frio e a chuva que estavam no Cortejo da Festa das Latas e não me constipei, apanhei uma penicada de água do Mondego pela moleirinha abaixo e também não me constipei nem fiquei com alopécia, fui a jantares de praxe. Fiz as coisas "como deve ser", ou como me disseram que deviam ser, mas a verdade é que não retenho um único amigo desse tempo, e não devo nada do que conheço da cidade de Coimbra e da Universidade a iniciativas de praxe, a menos que se contem aí as cantinas, que me parece que descobriria bem sem ajuda (e nem sequer tinha de comer com as mãos). Pelo que conheço, salvo honrosas excepções, como várias histórias contadas pelo Simões, acontece o mesmo com a maior parte dos estudantes. Se calhar um ou outro amigo, se calhar um "padrinho" porreiraço que arranje fotocópias - tudo coisas muito válidas, sem dúvida - mas não uma verdadeira integração, não a criação de uma identidade entre os vários alunos da mesma turma/ano/curso.
Há também quem defenda uma certa ideia de tradição secular para defender a praxe académica, e retire daí a sua importância, com (ou sem) Hobsbawm (peço desculpa), na manutenção de uma micro-sociedade, como o meio académico, "saudável", em paz com o seu passado e pronta para construir um futuro; contudo, sabe-se que a praxe académica foi reavivada há bem pouco tempo, em Coimbra, a cidade universitária em Portugal por excelência, e inventada também há pouco tempo, em cidades que nunca tinham tido instituições de Ensino Superior (Leiria, por exemplo). Não é isso que lhe retira legitimidade enquanto tradição, pela mesma razão que o Aniversário da Causa a tem: a História não tem nada que ver com a tradição. Basta aliás olhar, cingindo-me apenas ao que conheço, para a Festa das Latas - inventada no século XIX como celebração do final do ano lectivo, só a partir de meados do século XX é que passou para Outubro, e só a partir de 1979 é que passou a incluir um desfile participado por todas as faculdades; tinha, a certa altura, um carácter marcadamente político e os caloiros levavam com eles letreiros satíricos sobre a Academia, a cidade ou o país, e hoje basta passar por lá para se ver que ninguém sequer se lembra disso. Tudo bem. As tradições mudam sem terem necessariamente de acabar nem de se desvirtuar, e os rituais servem para suspender a ordem social para que esta depois se reponha, com menor probabilidade de alguém tugir contra ela porque, por um dia ou uma semana, ela deixou de se aplicar. Tudo bem outra vez, todos precisamos de nos sentir enraizados a alguma coisa, e escolhemos o que nos dá mais jeito. Tudo bem, mas isto não é desculpa para tudo.
Pessoalmente, pouco faço para parar a praxe porque reconheço o direito à parvoíce dos outros na exacta medida em que espero que reconheçam o meu, que aliás exerço com frequência (estou a escrever isto às 3.45, for instance). Não me assumo sequer como "antipraxe", mas simplesmente como não-participante segundo o velho princípio do não-gosta-não-come, que é aplicável a uma vasta gama de situações. Porém, só posso aplaudir quando se castiga exemplarmente determinados imbecis (ou mentecaptos, ou simplesmente bestas, não posso é deixar de os insultar) por, ao exercerem esse seu legítimo direito, atropelarem os direitos dos outros, e pior que esses, os que os abrigam e encobrem porque "a praxe é assim mesmo, e é assim que tem de ser", e que aliás são os mesmos que vão fazer com que ela se faça proibir. Por mim tudo bem, porque também não vejo problemas em proibir tradições quando elas não só não têm sentido como são pouco menos que bárbaras (voltando a mencionar bovinos: hallo, Barrancos).
E pronto, isto tudo só para mostrar este link. O texto vale a pena ser lido.
Comecemos com um disclaimer - Enquanto ex-caloiro, enquanto novamente-caloiro, enquanto membro mais-ou-menos participativo da Associação Académica de Coimbra, enquanto estudante do Ensino Superior e enquanto cidadão, não gosto da praxe académica. Quando digo que não gosto, quero dizer que não me revejo nem nas práticas nem nos valores que lhe são associados, pelo menos na realidade em que me movimento e de que me apercebo, apesar de andar frequentemente distraído. Em boa verdade, parece-me um processo anacrónico, retrógrado e hierarquizante. É sobretudo aqui que bate o ponto: nunca consegui compreender a razão para estar "acima" ou "abaixo" de qualquer um dos meus colegas, com as mesmas qualificações e responsabilidades que eu, por ter realizado a primeira matrícula no Ensino Superior numa bela manhã algures em Setembro de 2004 (lembro-me bem).
Em todo o caso, entre Outubro e Dezembro desse ano, resolvi deixar-me ir na mesma corrente em que via os meus colegas a vogar, e posso dizer que não tirei resultados traumáticos disso: embebedei-me com eles, participei vestido de forma ridícula e inapropriada para o frio e a chuva que estavam no Cortejo da Festa das Latas e não me constipei, apanhei uma penicada de água do Mondego pela moleirinha abaixo e também não me constipei nem fiquei com alopécia, fui a jantares de praxe. Fiz as coisas "como deve ser", ou como me disseram que deviam ser, mas a verdade é que não retenho um único amigo desse tempo, e não devo nada do que conheço da cidade de Coimbra e da Universidade a iniciativas de praxe, a menos que se contem aí as cantinas, que me parece que descobriria bem sem ajuda (e nem sequer tinha de comer com as mãos). Pelo que conheço, salvo honrosas excepções, como várias histórias contadas pelo Simões, acontece o mesmo com a maior parte dos estudantes. Se calhar um ou outro amigo, se calhar um "padrinho" porreiraço que arranje fotocópias - tudo coisas muito válidas, sem dúvida - mas não uma verdadeira integração, não a criação de uma identidade entre os vários alunos da mesma turma/ano/curso.
Há também quem defenda uma certa ideia de tradição secular para defender a praxe académica, e retire daí a sua importância, com (ou sem) Hobsbawm (peço desculpa), na manutenção de uma micro-sociedade, como o meio académico, "saudável", em paz com o seu passado e pronta para construir um futuro; contudo, sabe-se que a praxe académica foi reavivada há bem pouco tempo, em Coimbra, a cidade universitária em Portugal por excelência, e inventada também há pouco tempo, em cidades que nunca tinham tido instituições de Ensino Superior (Leiria, por exemplo). Não é isso que lhe retira legitimidade enquanto tradição, pela mesma razão que o Aniversário da Causa a tem: a História não tem nada que ver com a tradição. Basta aliás olhar, cingindo-me apenas ao que conheço, para a Festa das Latas - inventada no século XIX como celebração do final do ano lectivo, só a partir de meados do século XX é que passou para Outubro, e só a partir de 1979 é que passou a incluir um desfile participado por todas as faculdades; tinha, a certa altura, um carácter marcadamente político e os caloiros levavam com eles letreiros satíricos sobre a Academia, a cidade ou o país, e hoje basta passar por lá para se ver que ninguém sequer se lembra disso. Tudo bem. As tradições mudam sem terem necessariamente de acabar nem de se desvirtuar, e os rituais servem para suspender a ordem social para que esta depois se reponha, com menor probabilidade de alguém tugir contra ela porque, por um dia ou uma semana, ela deixou de se aplicar. Tudo bem outra vez, todos precisamos de nos sentir enraizados a alguma coisa, e escolhemos o que nos dá mais jeito. Tudo bem, mas isto não é desculpa para tudo.
Pessoalmente, pouco faço para parar a praxe porque reconheço o direito à parvoíce dos outros na exacta medida em que espero que reconheçam o meu, que aliás exerço com frequência (estou a escrever isto às 3.45, for instance). Não me assumo sequer como "antipraxe", mas simplesmente como não-participante segundo o velho princípio do não-gosta-não-come, que é aplicável a uma vasta gama de situações. Porém, só posso aplaudir quando se castiga exemplarmente determinados imbecis (ou mentecaptos, ou simplesmente bestas, não posso é deixar de os insultar) por, ao exercerem esse seu legítimo direito, atropelarem os direitos dos outros, e pior que esses, os que os abrigam e encobrem porque "a praxe é assim mesmo, e é assim que tem de ser", e que aliás são os mesmos que vão fazer com que ela se faça proibir. Por mim tudo bem, porque também não vejo problemas em proibir tradições quando elas não só não têm sentido como são pouco menos que bárbaras (voltando a mencionar bovinos: hallo, Barrancos).
E pronto, isto tudo só para mostrar este link. O texto vale a pena ser lido.
quinta-feira, 13 de novembro de 2008
omelete educativa
Sob nova chuva de ovos, o modelo de avaliação de professores foi agora classificado pelos inspectores da Educação como não exequível, por manifesta falta de pessoal para o executar.
Isto de viver em mundos a fingir dá merda.
Isto de viver em mundos a fingir dá merda.
terça-feira, 14 de outubro de 2008
megalopropinomania, ou como bolonha matou o ensino superior
Alunos de mestrado no Politécnico de Lisboa contestam “aumento brutal” de propinas
Os 15 alunos do segundo ano do Curso de Mestrado em Teatro da Escola Superior de Teatro e Cinema do Instituto Politécnico de Lisboa (IPL) afirmam que lhes foi comunicado pela escola, quando faltavam cinco dias úteis para o início das matrículas, que deveriam pagar este ano propinas no valor de 1650 euros, “um acréscimo brutal e inesperado de 73 por cento” em relação aos 950 euros que pagaram no ano passado.
Aquando da implantação de Bolonha, muita gente denunciou este processo como um enorme passo em direcção à mercantilização do Ensino Superior. A denúncia mais vocal veio do PCP, como seria de esperar. Assim todo os argumentos foram descartados pelo simples facto de emanarem do "cretácico" Partido.
Há uma semana, estava eu em Lille numa conferência sobre mobilidade no Ensino Superior. Li muito papel e aturei muito painel. Vi malta com a mania que era importante, sobretudo presidentes de associações de estudantes, e vi malta realmente importante, passarões da Comissão Europeia e de variadas corporações relacionadas com a área, à escala europeia. Foi curioso ver todos aqueles engravatados a concluir exactamente as mesmas coisas que o PCP, entre outros, vem defendendo há uma década.
Entretanto, as consequências vão-se fazendo sentir. Estes pobres coitados levam um aumento de propina astronómico, o meu curso ficou partido em dois sem grande coerência, cada vez mais se tenta captar um universo de estudantes não-europeus para lhes cobrar o cu e oito tostões por McCursos, e a tendência universal de desorçamentação do Ensino é tão forte que, brevemente, até na Escandinávia vão começar a introduzir propinas.
A uma ideia boa, a criação de uma Área Europeia de Ensino Superior, englobando 46 países e apoiando-se na Declaração de Bolonha, seguiu-se uma aplicação podre e enganosa, que poderá ter acabado com a mobilidade horizontal (ERASMUS e afins), e perpetuará as diferenças de classe na mobilidade vertical (vulgo ir tirar o mestrado a outro país), elitizando e mercantilizando aquilo que devia ser uma pedra basilar do desenvolvimento das sociedades europeias e mundiais, e idealmente um espaço mais democrático que todos os outros.
Prestes a bater no fundo...
Os 15 alunos do segundo ano do Curso de Mestrado em Teatro da Escola Superior de Teatro e Cinema do Instituto Politécnico de Lisboa (IPL) afirmam que lhes foi comunicado pela escola, quando faltavam cinco dias úteis para o início das matrículas, que deveriam pagar este ano propinas no valor de 1650 euros, “um acréscimo brutal e inesperado de 73 por cento” em relação aos 950 euros que pagaram no ano passado.
Aquando da implantação de Bolonha, muita gente denunciou este processo como um enorme passo em direcção à mercantilização do Ensino Superior. A denúncia mais vocal veio do PCP, como seria de esperar. Assim todo os argumentos foram descartados pelo simples facto de emanarem do "cretácico" Partido.
Há uma semana, estava eu em Lille numa conferência sobre mobilidade no Ensino Superior. Li muito papel e aturei muito painel. Vi malta com a mania que era importante, sobretudo presidentes de associações de estudantes, e vi malta realmente importante, passarões da Comissão Europeia e de variadas corporações relacionadas com a área, à escala europeia. Foi curioso ver todos aqueles engravatados a concluir exactamente as mesmas coisas que o PCP, entre outros, vem defendendo há uma década.
Entretanto, as consequências vão-se fazendo sentir. Estes pobres coitados levam um aumento de propina astronómico, o meu curso ficou partido em dois sem grande coerência, cada vez mais se tenta captar um universo de estudantes não-europeus para lhes cobrar o cu e oito tostões por McCursos, e a tendência universal de desorçamentação do Ensino é tão forte que, brevemente, até na Escandinávia vão começar a introduzir propinas.
A uma ideia boa, a criação de uma Área Europeia de Ensino Superior, englobando 46 países e apoiando-se na Declaração de Bolonha, seguiu-se uma aplicação podre e enganosa, que poderá ter acabado com a mobilidade horizontal (ERASMUS e afins), e perpetuará as diferenças de classe na mobilidade vertical (vulgo ir tirar o mestrado a outro país), elitizando e mercantilizando aquilo que devia ser uma pedra basilar do desenvolvimento das sociedades europeias e mundiais, e idealmente um espaço mais democrático que todos os outros.
Prestes a bater no fundo...
segunda-feira, 28 de julho de 2008
números que dizem alguma coisa
No ano lectivo de 2005/2006, a taxa média de abandono escolar no Ensino Superior foi de 11,35 por cento nas universidades públicas portuguesas.
Mandar estes números cá para fora é bonito, explicá-los também não deve ser muito difícil (embora exija método), já fazer algo para os alterar vai ser o cabo dos trabalhos...
Mandar estes números cá para fora é bonito, explicá-los também não deve ser muito difícil (embora exija método), já fazer algo para os alterar vai ser o cabo dos trabalhos...
quinta-feira, 15 de maio de 2008
modernices erásmicas
Anda um gajo às turras com documentos oficiais por sabe-se lá que razão, e acaba por aprender uma coisa ou outra:
With the start of the European university system in the 11th century, it was natural over a period of several hundred years for students and lecturers to move around freely. The "Barbarossa Privilege" afforded the special protection of the King to those migrant scholars who had become "homeless for the love of science (amore scientiae facti exules)". Using Latin as the lingua franca, universities were international beyond the Age of Enlightenment, without having to emphasize this characteristic.
Isto é, durante largos séculos, a mobilidade académica era uma realidade pura e simples, e muito valorizada.
With the start of the European university system in the 11th century, it was natural over a period of several hundred years for students and lecturers to move around freely. The "Barbarossa Privilege" afforded the special protection of the King to those migrant scholars who had become "homeless for the love of science (amore scientiae facti exules)". Using Latin as the lingua franca, universities were international beyond the Age of Enlightenment, without having to emphasize this characteristic.
Isto é, durante largos séculos, a mobilidade académica era uma realidade pura e simples, e muito valorizada.
quarta-feira, 2 de abril de 2008
a turma do betos
O Bloco de Esquerda anunciou esta segunda-feira que vai apresentar um projecto-lei para impedir a constituição de turmas exclusivamente constituídas ou por alunos privilegiados ou por repetentes na escola pública, como meio para combater o insucesso escolar.
No último fim-de-semana tive um jantar com ex-colegas de turma do meu 5º ano de escolaridade. Essa turma gerou malta competente e arruinados, como qualquer outra. Tínhamos um gajo com 16 anos e tudo. Claro que a turma G (esta) tinha horário de tarde e uns quantos repetentes.
Como o horário da tarde era uma valente merda para mim, que tinha de sair de casa todos os dias às 8 da manhã, o meu pai puxou uns cordelinhos e eu fui transferido para a turma B no 6º ano, e por lá fiquei. Já se notava alguma diferença, mas ainda havia um ou outro mais arruaceiro e 4 surdos, fortes personagens.
Na passagem para o 7º ano, uma turma problemática foi desfeita e partida ao meio: quem tinha uma pauta com muitos 5s, veio para a B; quem tinha uma pauta com muitos 2s, concentrou-se na D. Fodeu-se um bocado a malta da D, como é bom de ver. Fodeu-se também a B, de caminho.
A iluminada criatura responsável pela engenharia social adjacente não conhecia nenhuma das turmas, e esta manobra foi de facto reconhecida (anos mais tarde) como um esforço para criar uma "turma de excelência" com filhos de gente bem e putos mais espertos que a média. O único repetente que lá caiu era filho de docente, e a sua entrada fez-lhe bem a ele, que acalmou um bocadinho, e fez bem à turma, que amotinou um bocadinho. E isto só no 8º ano.
A saber, a turma B era de facto a turma com melhor aproveitamento na escola, mas, a nível de convivência, era uma valente merda. Havia demasiada competição pelas notas, expectativas de comportamento demasiado altas, divisões muito cavadas entre grupos de alunos, etc. Independentemente do meu relacionamento individual com os meus colegas, que é bom na maior parte dos casos (e guardo bons amigos desse tempo), eu detestava a turma B.
Tive um jantar com a malta da G. Curti milhões ver aquela malta outra vez.
Não imagino isso a acontecer com a malta da B.
No último fim-de-semana tive um jantar com ex-colegas de turma do meu 5º ano de escolaridade. Essa turma gerou malta competente e arruinados, como qualquer outra. Tínhamos um gajo com 16 anos e tudo. Claro que a turma G (esta) tinha horário de tarde e uns quantos repetentes.
Como o horário da tarde era uma valente merda para mim, que tinha de sair de casa todos os dias às 8 da manhã, o meu pai puxou uns cordelinhos e eu fui transferido para a turma B no 6º ano, e por lá fiquei. Já se notava alguma diferença, mas ainda havia um ou outro mais arruaceiro e 4 surdos, fortes personagens.
Na passagem para o 7º ano, uma turma problemática foi desfeita e partida ao meio: quem tinha uma pauta com muitos 5s, veio para a B; quem tinha uma pauta com muitos 2s, concentrou-se na D. Fodeu-se um bocado a malta da D, como é bom de ver. Fodeu-se também a B, de caminho.
A iluminada criatura responsável pela engenharia social adjacente não conhecia nenhuma das turmas, e esta manobra foi de facto reconhecida (anos mais tarde) como um esforço para criar uma "turma de excelência" com filhos de gente bem e putos mais espertos que a média. O único repetente que lá caiu era filho de docente, e a sua entrada fez-lhe bem a ele, que acalmou um bocadinho, e fez bem à turma, que amotinou um bocadinho. E isto só no 8º ano.
A saber, a turma B era de facto a turma com melhor aproveitamento na escola, mas, a nível de convivência, era uma valente merda. Havia demasiada competição pelas notas, expectativas de comportamento demasiado altas, divisões muito cavadas entre grupos de alunos, etc. Independentemente do meu relacionamento individual com os meus colegas, que é bom na maior parte dos casos (e guardo bons amigos desse tempo), eu detestava a turma B.
Tive um jantar com a malta da G. Curti milhões ver aquela malta outra vez.
Não imagino isso a acontecer com a malta da B.
terça-feira, 4 de março de 2008
tiros no pé e gente aos tiros
Depois daquela massacre do Prós e Contras da semana passada, e dum avolumar de críticas vindas do PS, o Secretário de Estado conseguiu atacar um Ministro inadvertidamente, e pelo meio, os docentes do Ensino Superior juntam-se ao coro de protestos. Palavra, não gostava de ser Valter Lemos, nem agora nem nunca.
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008
Prós e Contras na ressaca
Afinal Maria de Lurdes Rodrigues é ministra da Avaliação
A propósito da polémica avaliação dos professores, o primeiro-ministro cometeu a 'gaffe' sobre o tema do momento: chamou a Maria de Lurdes Rodrigues ministra da Avaliação, em vez de ministra da Educação. Na sala viram-se sorrisos e ouviram-se risos.
Entre Educação e Avaliação, consegue destruir ambas.
A propósito da polémica avaliação dos professores, o primeiro-ministro cometeu a 'gaffe' sobre o tema do momento: chamou a Maria de Lurdes Rodrigues ministra da Avaliação, em vez de ministra da Educação. Na sala viram-se sorrisos e ouviram-se risos.
Entre Educação e Avaliação, consegue destruir ambas.
terça-feira, 26 de fevereiro de 2008
Prós e Contras III
A elevação do debate chegou ao zénite: uma professora acusa a Ministra de não conhecer as escolas, a Ministra responde chamando loura à professora.
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008
falta de sexo
A encavadela que está a levar no Prós e Contras é o mais próximo de sexo que a Ministra da Educação tem tido ultimamente.
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008
jura?
Conselho Científico para a Avaliação de Professores terá carácter político se a ministra o presidir
Eu não o que vai na cabeça desta gaja, mas francamente, é cada tiro, cada rótula!
Eu não o que vai na cabeça desta gaja, mas francamente, é cada tiro, cada rótula!
sexta-feira, 25 de janeiro de 2008
Duas prendas no JN
Acabadinho de vir da lota, um estudo revela que os portugueses confiam mais nos professores e menos nos políticos. Sou filho de professores e vejo o que os políticos andam a fazer à profissão, portanto pergunto se os sindicatos não conseguiriam capitalizar esse grau de confiança dos cidadãos para impedir mais umas bordoadas na Escola Pública.
Agradável surpresa, descobri que o Nuno Rogeiro, o tudologista português, escreve no JN às sextas (disponível online). Hoje mapeia a oposição ao Governo. Discordo de toda a importância que atribui a Manuel Alegre, mas acho que a análise ao PCP está apuradíssima.
Agradável surpresa, descobri que o Nuno Rogeiro, o tudologista português, escreve no JN às sextas (disponível online). Hoje mapeia a oposição ao Governo. Discordo de toda a importância que atribui a Manuel Alegre, mas acho que a análise ao PCP está apuradíssima.
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