Mostrar mensagens com a etiqueta saúde. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta saúde. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 20 de maio de 2011

a visão do bloco central

Blocos operatórios de quatro hospitais de Lisboa "obrigados" a fechar para refeições

(...) Segundo os sindicalistas, há vários anos que os médicos anestesistas cumprem horários desfasados para garantir o funcionamento integral dos blocos operatórios de forma ininterrupta entre as 08h00 e as 20h00.

Assim, enquanto alguns profissionais entravam às 08h00 para serem substituídos às 15h00, outros trabalhavam entre as 14h00 e as 20h00, em jornada contínua.

“Os gestores descobriram que seria necessário que este sistema não se efectuasse em ‘jornada contínua’ e seria imperioso cumprir interrupções de pelo menos uma hora para as refeições”, refere a nota.

Durante muito tempo fomos ouvindo falar da racionalização de custos, da bondade da gestão profissional da saúde (e no ensino encontra-se muita coisa deste género), mas francamente nunca uma pessoa formada em Gestão vai perceber NADA daquilo que é chamada a gerir.

Nesta terra só se formam chefes. Não há líderes, há chefes. Pessoas que mandam. Não sabem fazer, então mandam. O resultado está à vista.

Hoje temos uma carga fiscal selvagem, pagamos em dobro por serviços consagrados na Constituição como gratuitos ou tendencialmente gratuitos, e continuam a dizer-nos que o futuro passa por cortar mais e mais e mais. Entretanto ainda nenhum destes gestores foi coberto de alcatrão e penas. Aliás, a maior parte destas tristes figuras resultam da colonização do Estado pelo bóis.

Dia 5 de Junho, não se esqueçam de votar em mais 4 anos disto...

segunda-feira, 4 de abril de 2011

privatizar é o caminho, dizem-nos

Privados são os mais visados nas 8188 queixas de utentes

Os serviços privados são os mais visados nas 8188 reclamações dos utentes de cuidados de saúde que chegaram à entidade reguladora do sector em 2010, segundo dados a que a Agência Lusa teve acesso.

No ano passado, a maioria das queixas dos utentes que se manifestaram junto da Entidade Reguladora da Saúde (ERS) era relacionada com entidades privadas: 4018 com internamento e 3.554 sem internamento. As restantes reclamações distribuíram-se pelo público com internamento (115), público sem internamento (66), social com internamento (255) e social sem internamento (180).

Os utentes queixaram-se mais da qualidade da assistência administrativa (2.040 reclamações), dos tempos de espera superiores a uma hora (1.800), da qualidade da assistência de cuidados de saúde (1229), de questões financeiras (770), assistência humana (532), entre outros. Do total das queixas apresentadas, 46 relacionavam-se com discriminação.

Em 2009, chegaram à ERS 7.848 queixas de utentes que, nesse período, reclamaram essencialmente dos tempos de espera, da qualidade de assistência administrativa e dos cuidados de saúde.

terça-feira, 9 de março de 2010

um vómito

No final de Janeiro, os enfermeiros fizeram greve e manifestaram-se por todo o país. São uma classe profissional das mais importantes na sociedade e no entanto não valorizados como tal:
Os enfermeiros contestam a alegada proposta governamental de ingresso na carreira, que fixa o salário em 995 euros, um valor abaixo dos actuais 1020 euros e dos 1200 euros de outros profissionais da administração pública.

Juntaram-se ainda à greve da Administração Pública. No site do Sindicato dos Enfermeiros podem ler-se as principais reinvindicações:
Pelo aumento dos salários; Pela estabilidade no emprego; Pela admissão de mais enfermeiros; Por condições dignas de aposentação;

Tendo isto em mente, sugiro a leitura desta posta de Eduardo Pitta, donde destaco o seguinte:
O Sindicato dos Enfermeiros Portugueses (não confundir com enfermeiros portugueses) deu pinotes de satisfação com a adesão dos seus associados à greve do passado dia 4. O SEP devia ter juízo. E, de caminho, explicar à opinião pública o elevadíssimo índice de mortalidade das urgências de fim-de-semana. Verdade que os enfermeiros não são os únicos (nem os principais) responsáveis. Os gestores hospitalares que toleram este estado de coisas têm de responder pelos números do quadro supra. E os médicos com cargos de chefia também.

Temos aqui, portanto, o vómito do costume.

Primeiro, o sindicato não representam os enfermeiros - daí a residual adesão de 90% à greve convocada pelo sindicato.

Segundo, o sindicato não deve ficar satisfeito com a adesão à greve que convocou - e a lógica deixou de ser relevante.

Terceiro, o sindicato que reclama a admissão de mais enfermeiros deve responder por uma taxa de mortalidade mais elevada ao fim-de-semana - porque o sindicato é, obviamente, responsável pelas mortes, e a questão da admissão de mais enfermeiros não é relevante, porque lógica (ver ponto anterior).

Quarto, depois de atacar o sindicato, ensaia uma emenda e responsabiliza os gestores médicos com cargos de chefia - mas nunca uma classe política que, consistente e insistentemente, delapida os recursos do Estado, bem necessários em áreas como a Saúde, em negócios ruinosos com os compadres de sempre.

Segundo Eduardo Pitta, os sindicatos matam. Espero que alguém lhe vomite no colo, um dia destes.

segunda-feira, 1 de março de 2010

them and us

a lei esfumada
(...) Há locais que ficaram aliás exactamente como eram antes da lei – antros irrespiráveis – e outros estão a caminho de regressar à primeira fórmula. Os que combateram a lei dirão, claro, que só lá vai quem quer, como antes diziam de todos os locais onde o fumo era livre. Mas não só há quem esteja lá por obrigação e necessidade – os empregados, de quem toda a gente parece sempre esquecer-se – como nada leva a crer que os estabelecimentos tenham sofrido com a exclusão do tabaco: na generalidade dos restaurantes onde há espaços de fumadores e de não fumadores os segundos, apesar de maiores, enchem muito mais rapidamente.

Isso não só significa que há mais procura para as zonas sem fumo como que é provável que quem não arranja lugar nessas acabe por ir parar às de fumadores. Já me sucedeu – e a semana passada até dei de caras com uma criança na zona “azul”. (...) Estão fora – e irem “lá fora” fumar, por penoso que seja para os próprios e para os outros, é a simbólica consequência. Não há meios-termos nem negociação possível com os fumadores: esta lei falhada demonstra-o bem.

A generalização é a doer, e entrevejo aqui uma argumentação do género "eu até tenho um amigo preto". O certo é que conheço empregados que fumam, bastantes até, que param o serviço e vão fumar à rua - mas fumariam dentro se pudessem. A aceitação da lei até foi pacata, e notou-se uma certa civilidade da maior parte do pessoal - respeita-se a solução encontrada, até a de fumar ao frio, à chuva e ao vento. E qualquer pessoa que frequente o Café Convívio sabe que essa tanga da zona de não-fumadores encher antes é uma treta pegada - há muito quem prefira almoçar e jantar não na zona de restaurante (vermelha) mas na zona de café (azul) para acender o cigarro logo no final da refeição.

Não há negociação possível com os cruzados do fumo.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

generation cancer

'Third-hand smoke' could damage health
Lingering residue from tobacco smoke which clings to upholstery, clothing and the skin releases cancer-causing agents, work in PNAS journal shows.

Berkeley scientists in the US ran lab tests and found "substantial levels" of toxins on smoke-exposed material.

They say while banishing smokers to outdoors cuts second-hand smoke, residues will follow them back inside and this "third-hand smoke" may harm.

(...) The researchers say third-hand smoke is an unappreciated health hazard and suggest a complete ban on smoking in homes and in vehicles to eliminate any risk.

(...) Researcher Lara Gundel, of the Lawrence Berkeley National Laboratory, said: "Smoking outside is better than smoking indoors but nicotine residues will stick to a smoker's skin and clothing.

"Those residues follow a smoker back inside and get spread everywhere. The biggest risk is to young children.

Começa assim a política do "get out and stay out" e do "smoking kills your unborn grandchild". Bardamerda com estes gajos. Vou fumar um cigarrinho.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

querida mãezinha,

ao fim deste tempo descobri a razão porque, inconscientemente, me parecia errado fazer a cama todos os dias.

domingo, 24 de janeiro de 2010

apologia da foda mágica

Nota introdutória: estou a meter-me numa alhada ao publicar isto.



Sexo faz bem ao coração
Segundo a investigadora Susan A. Hall, coordenadora do estudo, fazer sexo de duas a três vezes por semana pode ter um efeito protector para o coração. Para além da prática do sexo poder ser um exercício de intensidade moderada, as hormonas libertadas após a ejaculação, ajudam a equilibrar uma série de funções metabólicas. Segundo os pesquisadores os homens com mais disposição para o sexo costumam ser menos sedentários e cuidarem melhor da saúde.

O estudo demonstra também que homens que fazem sexo em média uma vez por mês têm o dobro dos problemas de saúde daqueles homens que têm relações sexuais mais do que uma vez por semana.

Bed sharing 'drains men's brains'
Sharing a bed with someone could temporarily reduce your brain power - at least if you are a man - Austrian scientists suggest.

When men spend the night with a bed mate their sleep is disturbed, whether they make love or not, and this impairs their mental ability the next day.

(...) Bed sharing also affected dream recall. Women remembered more after sleeping alone and men recalled best after sex.

(...) "Sharing the bed space with someone who is making noises and who you have to fight with for the duvet is not sensible.

"If you are happy sleeping together that's great, but if not there is no shame in separate beds."

Conclusão: amigos, foder regularmente faz bem, mas dormir acompanhado nem tanto. Cada qual retirará as suas ilacções.

domingo, 17 de janeiro de 2010

médicos do panamá no desemprego?

Panama dismisses Cuban eye specialists - health minister
Panama has terminated the activity of Cuban eye specialists involved in free surgery for poor patients and demands that they leave the country by the end of April, the Panamanian health minister said.

Cuban ophthalmologists performed surgery on poor Panama residents free of charge in line with an intergovernmental cooperation agreement. Over 50,000 surgical operations have been carried out as part of Operation Miracle. Cuba implements similar programs in 29 countries.

"The Cuban program will be replaced by national project Vision 20-20 to be implemented by Panamanian doctors," Franklin Vergara said.

He indicated no reason for the move, but local media said the decision could have been made under pressure from Panamanian medical elite whose representatives had demanded the program shut down as free-of-charge medical aid threatened their economic interests.

Qualquer semelhança com a realidade local é pura coincidência.

terça-feira, 17 de março de 2009

not part of the solution

Papa afirma que a sida não se combate com preservativos

O Papa Bento XVI declarou hoje que a distribuição de preservativos não é a resposta adequada para se ajudar a África a combater a sida.

No avião que o leva de Roma para Yaoundé, nos Camarões, o chefe da Igreja Católica insistiu em que o problema da seropositividade "não se pode resolver com a distribuição de preservativos", pois que, "pelo contrário, isso só irá complicar a situação".

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

contra os cabrões, fumar, fumar

First blanket ban on smokers becoming foster parents

Saúde: Especialistas propõem ao Governo mudanças na lei do tabaco
Proibição total ao fumo do tabaco


Duas notas:

- se alguém não cumpre a lei, deve ser punido. É estúpido e contraproducente radicalizar ainda mais a lei. Quanto mais proibitiva, mais a malta a vai desrespeitar. Desçam à Terra;

- é preciso ser-se muito estúpido para fumar perto duma criança pequena. Se bem me recordo, a minha mãe sempre fumou ao longo da minha infância, e fuma ainda hoje; fumava pouco, é certo, e acima de tudo ia fumar à varanda, nunca dentro de casa. Claro que este tipo de subtileza escapa aos cruzados do pulmão limpo, e depois rotulam toda a gente como bestas negras que andam para aí a envenenar as criancinhas. Portanto, na cabeça desta malta, é melhor um puto não ter pais do que ter pais fumadores. Desçam à Terra.

terça-feira, 29 de julho de 2008

desporto é saúde

Esta tarde, na praia da Barra:

- Vamos dar uma corrida até ao pontão?

- Sim, deixa-me só acabar o cigarro.

terça-feira, 8 de abril de 2008

à atenção de VPV e MST

Quando saiu a Lei do Fumo, muita barbaridade se ouviu, mas entretanto a coisa parece ter acalmado. Em Portugal, claro. Na Letónia, a malta estica-se um bocado mais, e foi aliás por isso que tive facilidade em adaptar-me à restrições em terras lusas.

The Latvian parliament has rejected an attempt to outlaw smoking while driving, but approved measures that will see lighting up banned in all public catering outlets.

Assusta-me o esforço.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

contrastes

José Sócrates celebra o início da construção do Hospital de Cascais em parceria público-privada dizendo "Serviço Nacional de Saúde" cerca de 10 vezes em minuto e meio, e logo a seguir embarcam 50 transmontanos que, perante esperas de 3 anos no dito Serviço Nacional de Saúde, vão a Cuba (do Fidel, aliás, do Raúl) ser operados às cataratas.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

A cruzada do Avô Cantigas

Vital Moreira INSISTE MESMO MUITO em que a política de saúde do Governo deve continuar apesar da saída de Correia de Campos, e que essa remodelação se deve aos interesses obscuros, que manipulam a comunicação social tablóide. Newsflash: os interesses são claros, são os das populações que perdem equipamentos de saúde e não têm uma rede de transporte suficientemente eficaz para cobrir essa perda.

Volta, Luís Delgado, estás perdoado!

sábado, 26 de janeiro de 2008

A fachada caiu

Correia de Campos: "a pessoa não faleceu, estava falecida!"
ouvido em entrevista à TVI, apenas um momento embaraçoso em milhares num intervalo de poucos minutos, acerca da descoordenação da prestação de socorro médico em Alijó.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Por um SNS geral, universal e gratuito

Apelo a que assinem esta petição, em defesa do Sistema Nacional de Saúde. Somos utentes, não clientes, e isto de pagar taxas por internamento decidido, não pelo utente, mas por um médico, é apenas uma das muitas coisas que não fazem sentido no SNS. Andamento.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Só prova que era tuga

Colombo trouxe a sífilis para a Europa

Vamos ver se, à luz desta descoberta, a malta vai continuar a invocar que ele é deste sítio ou daquele. A teoria defendida por Manoel de Oliveira, de que Colombo nasceu na aldeia alentejana de Cuba, começa a fazer mais sentido.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

press review

Hoje o DN dá pano para mangas...

Médicos espanhóis ameaçam sair de Portugal
Daí o fecho das urgências. Recusam-se a alterar o Imposto Sobre Veículos, morrem mais pessoas por falta de assistência atempada. Lógico.

GNR agredidos em baile por populares furiosos
Lindo.

Mulher atropelada a comprar pão por jovem que olhava para o GPS
Trágico. Estranho. Problema.

Magia sobre rodas faz circular sem piloto
Solução para o problema, a páginas de distância.

Leiam mais jornais!

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Know your dope fiend

Reino Unido vai voltar a colocar cannabis na lista de drogas perigosas

Decisão racional, ponderada e reveladora duma mente tolerante e aberta. Parece que a erva está forte naqueles lados. Posse pode dar 5 anos. Tráfico, 14. Se viajarem até, ou fizerem escala no Reino Unido, esvaziem bem os bolsos antes de partir. Eles até andam com automáticas nos aeroportos e mataram um brasileiro no Metro. Lembrei-me desta cena clássica:


terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Uma Visita de Estudo à Laia de Ensino Primário

Gostaria de partilhar convosco um momento de desabafo que surgiu no contexto de um trabalho para uma cadeira com o bonito nome de "Curso Livre de Políticas e Gestão de Saúde Pública". Bem sei que o título é tudo menos apelativo, mas peço-vos que não sejam precipitados no julgamento do texto que se segue. Talvez se divirtam.
Aqui vai.


Visita ao Hospital da Luz - Breve Reflexão

Antes de falar sobre as minhas impressões relativas à visita ao Hospital da Luz, gostaria de deixar claro que tenho algumas reticências em relação a qualquer privatização que envolva a saúde. Não se trata tanto de uma ideologia firmemente cimentada à base de doutrina esquerdista ou de complexos de ordem ético-moral, mas mais uma revolta emocional que se apodera das minhas vísceras quando me saltam à vista as disparidades existentes no que toca à qualidade de serviços médicos prestados quando um utente tem dinheiro e outro não o tem. Poder-me-ia alongar sobre este assunto, mas tal daria pano para mangas e está longe de ser o objectivo da reflexão. Digamos apenas, para efeitos práticos, que a minha atitude a priori ao visitar o Hospital da Luz era de desdém e até alguma repulsa.
Assim sendo, vamos ao que interessa.

Saí na estação de Metro do Colégio Militar/Luz em passo acelerado, certo de que já iria chegar atrasado à visita ao Hospital da Luz. Parei junto de um vendedor de castanhas (figura algo deslocada e até ridícula tendo em conta as condições climatéricas, já que o sol brilhava com fúria naquele final de tarde e o Outono teimava em deixar-se ficar a dormir) para lhe pedir indicações. “É só seguir em frente por aí fora e vê logo à sua direita.” Bastante simples. Acho que é o mínimo exigível a um hospital – que seja fácil de encontrar.
A minha primeira impressão ao deparar-me com o edifício foi a de que me estava a dirigir mais a um centro de conspirações políticas com tecnologia de ponta, do que a um hospital. É bem capaz de ser o hábito causado pela convivência quase diária com o monstro feio, desleixado e cimentado que é o Hospital de Santa Maria, mas o aspecto cuidado e resplandecente do Hospital da Luz tinha algo de Serviços Secretos norte-americanos pentagónicos.
Descobri a entrada principal sem dificuldades, onde já aguardavam os meus colegas. O átrio era agradável, com bastante luz vinda do exterior. Tinha um aspecto sóbrio, contrastando com a claridade artificial e quase histérica da entrada do Hospital de Santa Maria. Tudo, desde os bancos de espera até aos balcões de atendimento e passando pela farda dos funcionários, tinha um aspecto impecável.
Aguardámos uns 5 minutos até chegarem os colegas que faltavam (afinal, não tinha sido eu o único atrasado) e fomos dirigidos em alegre manada até um anfiteatro. Pelo caminho, ia observando o espaço. Havia um poço de luz central enorme repleto de plantas à nossa esquerda, logo depois dos elevadores. Havia ecrãs sensíveis ao toque de um dedo onde um utente podia obter as mais diversas informações. E havia, sobretudo, ausência de movimento. Pouca gente a circular. Pouco barulho. Era como se o hospital ainda estivesse a funcionar a meio gás.
Assim que nos instalámos no anfiteatro, iniciou-se uma breve sessão sobre o funcionamento do hospital e sua integração no grupo Espírito Santo, articulando-se com programas de seguros de saúde e contas bancárias de uma forma que a mim me pareceu de uma promiscuidade um pouco obscena. Mas sendo eu um ignorante nestes assuntos, desconhecendo por completo os trâmites nos quais se desenvolvem as tramas burocráticas da saúde, talvez essa percepção tenha sido apenas uma manifestação de um hipotético Síndrome de Velho do Restelo.
Foi-nos explicado que, por motivos óbvios e que dispensavam explicação, não havia possibilidade de permitir que um grupo de 20 estudantes andasse a passear-se pelos blocos operatórios, unidades de cuidados intensivos e quartos de internamentos com aquele ar curioso e deliciado de quem visita um museu. Mas uma visita guiada virtual permitiu-nos ter uma vaga ideia do tipo de maquinaria e tecnologia em que a administração do Hospital da Luz investiu. Há falta de melhor expressão, digamos que é impressionante. Achei particularmente tocante a existência de monitores multifuncionais colocados à cabeceira de cada cama nos quartos de internamentos. Chamo-lhes “multifuncionais” porque servem os médicos e os doentes. Para o médico, esse monitor permite-lhe aceder a toda a informação relativa ao doente e actualizá-la ou modificá-la – refiro-me ao diário clínico, terapêutica, ocorrências intra-hospitalares e toda essa panóplia de dados que geralmente se acumula em dossiers com números de camas. Para o doente, esse ecrã serve como telefone e computador com acesso à internet. Foi-nos inclusivamente contada a história de um doente, advogado de profissão, que fracturou uma perna enquanto fazia ski. Ficou internado no Hospital da Luz, e o facto de ter acesso à internet fez com que os dias de internamento não se tivessem tornado em dias inúteis, pois pôde tratar dos seus assuntos à base de e-mails e telefonemas. Sem querer menosprezar ou ridicularizar o sofrimento deste doente, não posso contudo deixar de considerar que são invejáveis as condições em que se deu a sua maleita.
Terminada a apresentação, fomos levados a diversas áreas do hospital na companhia de uma senhora cuja simpatia sorridente espelhava um profundo orgulho e satisfação pelas instalações onde exercia as suas funções – que salvo erro era a zona de avaliação e investigação cardiotorácica. Verdade seja dita, que tendo eu a tendência natural de me deixar ficar para último neste tipo de visitas guiadas, pouco mais consegui ver do que as costas dos meus colegas ao longo de toda a deambulação. Para além do mais, tornou-se cansativo serem-nos mostrados todos os atributos de inquestionável qualidade que pareciam surgir a cada esquina, desde os electrocardiógrafos de última geração com as mais variadíssimas funções e respectivas variantes até às torneiras com design de primeira categoria.
Esta felicidade extrema era, aliás, característica comum dos trabalhadores com quem nos cruzámos naquele hospital. Todos tinham um olhar de excitação infantil em plena época natalícia, como que enebriados por aquele lugar. Mais do que o hospital em si, foi a sensação de estar num lugar onde todos pareciam irritantemente alegres que mais me marcou. Passou-me pela cabeça a imagem de um casal recém-casado que acabou de adquirir o seu ninho de amor sob a forma de um T2 em Telheiras e organiza um “jantar de inauguração” onde os amigos são convidados a conhecer todos os cantos à casa, com especial relevo para um ou outro pormenor que mais orgulho suscita nos anfitriões.
Talvez esteja a exagerar. Não passo de um estudante que ainda não pode imaginar o quanto deve custar estar num hospital ou num centro de saúde onde cada compressa e solução salina dextrosada a 5% tem de ser contabilizada e racionalizada. Não sei o que é ver um doente morrer à minha frente sabendo que uma porcaria de uma maquineta poderia salvar-lhe a vida. Não sei o que é sentir o conhecimento fluir do meu cérebro para se entupir na ponta dos meus dedos, paralisados pela contenção trombótica de custos.
Mas uma coisa é certa – senti-me desajustado naquele sítio, de tão brilhante e impecável que estava. Aliviou-me sair para a rua e poder voltar a pisar o chão sem ter medo de o sujar.
Novembro, 2007